Como responder 'me fale sobre uma falha sua' na entrevista (sem queimar o filme)

Gean Carlos
Gean Carlos Growth Marketing Analyst | First Step Lab 8 minutos de leitura

A pergunta que mais trava candidatos em entrevistas de emprego, explicada de forma direta. O que falar, o que nunca falar, e por que o 'sou perfeccionista' não convence ninguém.

Onde a maioria dos candidatos erram

A entrevista já começa antes da entrevista. Tem o deslocamento, ou a espera pela chamada. Tem os últimos minutos onde você revisa mentalmente o que vai dizer, tenta se lembrar de tudo que preparou, e tenta não parecer nervoso sendo que está completamente ansioso.

Aí chega a hora. A conversa começa, você vai bem nas primeiras perguntas, e então aparece essa: “Me fale sobre uma falha sua.”

E trava.

Não por falta de falhas. Todo mundo tem. O problema é que a maioria dos candidatos chega nessa pergunta sem saber exatamente o que está sendo testado, e acaba respondendo de um jeito que não ajuda em nada.

O que o recrutador está realmente avaliando com essa pergunta

Antes de pensar na resposta, vale entender o que está sendo perguntado de verdade.

O recrutador não quer uma lista de defeitos. Ele quer saber como você lida com situações difíceis, se você consegue reconhecer onde errou, o que fez com esse erro e se você cresceu a partir dele. O que está sendo avaliado é maturidade e autoconsciência, não a gravidade da falha em si.

Uma pessoa que nunca erra não existe. Uma pessoa que erra e aprende é o que qualquer empresa quer contratar. A pergunta é uma oportunidade de mostrar isso. O problema é que a maioria das respostas comuns desperdiçam essa oportunidade completamente.

Por que “sou perfeccionista demais” não funciona

Vamos direto ao ponto: responder que seu maior defeito é o perfeccionismo não convence ninguém.

Não porque o recrutador é ingênuo. Mas porque ele já ouviu isso centenas de vezes e sabe exatamente o que está acontecendo: o candidato está tentando embrulhar uma qualidade como se fosse defeito. “Trabalho demais.” “Me envolvo muito com as entregas.” “Tenho dificuldade de desligar.”

É uma resposta decorada. E quanto mais decorada, mais o recrutador consegue perceber que é decorada. Uma boa entrevista é uma conversa, não um script. E script, na maioria das vezes, soa como decoreba.

Além disso, dizer que você é perfeccionista em excesso em vez de falar algo real quebra a credibilidade. Se você chegou até a entrevista com um currículo real e uma trajetória verdadeira, por que responderia essa pergunta com algo genérico? Isso cria uma quebra de expectativa completamente desnecessária no processo.

O que nunca falar: defeitos que te eliminam antes de terminar a resposta

Tem um outro extremo que também acontece, e que é igualmente problemático. Candidatos que, tentando ser honestos demais ou despreparados para a pergunta, falam defeitos completamente comportamentais.

Ser desorganizado com prazos. Ter dificuldade de trabalhar em equipe. Ser esquecido com compromissos.

Esses não são defeitos técnicos ou áreas de desenvolvimento. São comportamentos que indicam problemas sérios de profissionalismo básico. O recrutador não vai pensar “nossa, que honesto”. Vai pensar “esse candidato não é um bom profissional”.

Existe uma diferença gritante entre falar de uma área onde você ainda está desenvolvendo uma competência e falar de um comportamento que nenhum profissional sério deveria ter. Entender essa diferença antes de sentar na cadeira já coloca você à frente da maioria.

O método que funciona: Problema, Ação, Aprendizado

Resposta boa de falha tem estrutura. Não um script decorado, mas uma lógica clara que organiza o raciocínio e deixa o recrutador com a informação que ele precisa para te avaliar bem.

Problema: uma situação onde você errou ou deixou a desejar. Algo concreto, com contexto suficiente para a pessoa do outro lado entender o cenário.

Ação: o que você fez quando percebeu o erro. Como lidou, o que tentou corrigir, se buscou ajuda ou resolveu sozinho.

Aprendizado: o que mudou no seu jeito de trabalhar depois disso. Não uma frase genérica de “aprendi a ser mais cuidadoso”. Uma mudança concreta de comportamento ou processo.

Exemplo de como isso funciona na prática: um profissional júnior que assumiu uma entrega sem pedir alinhamento suficiente com o gestor, entregou de um jeito que não era o que a empresa esperava, precisou refazer parte do trabalho, e a partir disso passou a confirmar os critérios de sucesso antes de começar qualquer entrega relevante. Simples. Verdadeiro. Mostra que ele sabe reconhecer o erro e que algo mudou (pra bom) por causa disso.

Esse tipo de resposta não precisa ser dramático nem autoexplicativo demais. O recrutador consegue seguir o raciocínio. Você não precisa fazer três parágrafos de contexto antes de chegar no ponto. Dê as informações necessárias, chegue na ação e no aprendizado, e deixe espaço para a conversa continuar.

O que não pode é ficar vago. “Às vezes me precipito em algumas situações” não diz nada. Em que situação? Como? O recrutador vai preencher os buracos com o que vier na cabeça dele, e raramente o que ele imagina é melhor do que o que você poderia ter dito.

Tem uma analogia que ajuda a entender isso: se você trabalha com IA, sabe que quanto menos contexto você dá no prompt, mais o modelo inventa. Nossa mente funciona parecido. Quanto menos informação você oferece, mais a outra pessoa tende a completar com suposição. E suposição, numa entrevista, raramente joga a seu favor.

Calibrar a falha para o seu momento de carreira

Aqui tem um detalhe que faz diferença e pouca gente considera: a falha que você escolhe contar precisa fazer sentido para o seu nível de senioridade.

Se você é júnior ou está entrando na área agora, faz todo sentido falar que ainda tem lacunas técnicas específicas. Que está desenvolvendo uma ferramenta, que ainda peca na leitura de determinadas situações, que está construindo a capacidade de trabalhar sob pressão. Isso é honesto e adequado para quem está começando.

Se você é pleno ou sênior, esse tipo de resposta perde força. Um profissional com anos de experiência dizendo que “ainda está aprendendo a usar Excel” soa completamente estranho. Nesse caso, a falha precisa ter mais complexidade: dificuldade em delegar com clareza suficiente para times que gerencia, comunicação com stakeholders em momentos de conflito, gestão de prioridades em projetos simultâneos de alta pressão.

A falha precisa ser proporcional ao momento que você está. E para saber qual é esse momento, você precisa conhecer sua própria narrativa de carreira com clareza, o que você faz, onde está, o que busca e o que ainda precisa desenvolver. Isso é extremamente determinante, não pule essa etapa.

Ser específico é respeitar o recrutador

Tem um erro que atravessa quase todos os outros: ser vago.

“Minha comunicação ainda não é muito boa” não responde nada. Que tipo de comunicação? Com quem? Em que contexto? Comunicação escrita em documentos técnicos é completamente diferente de comunicação em apresentações para diretoria, que é completamente diferente de comunicação num conflito com um colega de equipe.

Quando você deixa a resposta vaga, você transfere para o recrutador o trabalho de interpretar o que você quis dizer. E ele vai interpretar com os filtros e experiências dele, não com a sua realidade. Pode ser que o que ele imagina seja muito pior do que o que você queria comunicar. Provavelmente é.

Uma versão mais específica da mesma resposta ficaria assim: “Percebo que ainda tenho dificuldade em estruturar documentações técnicas de forma que times não técnicos consigam acompanhar. Num projeto recente, precisei reescrever um relatório que tinha feito porque o gestor de outra área não conseguiu acompanhar a lógica. A partir disso, passei a sempre revisar o documento pensando em quem vai ler, não só no conteúdo que preciso passar.”

Isso é comunicação como área de melhoria. Específico, contextualizado, com aprendizado. Completamente diferente de “minha comunicação não é muito boa.”

Ser específico não é só uma técnica de entrevista. É uma forma de respeito pela conversa. Você está dizendo: “eu pensei nisso, eu sei o que quero comunicar, e estou te dando as informações necessárias para entender o que estou dizendo.” Isso passa maturidade. E maturidade é exatamente o que a pergunta está tentando medir.

O que a pergunta exige antes da entrevista

Responder bem essa pergunta na sala depende de um trabalho que acontece antes.

Você precisa conhecer sua trajetória com clareza. Saber o que já passou, o que errou, o que aprendeu, onde ainda está desenvolvendo. Isso não vem de decorar resposta. Vem de autoconhecimento verdadeiro sobre o seu momento profissional, o cargo que você busca, o que você tem a oferecer agora e o que ainda está construindo.

O profissional que chega na entrevista sabendo exatamente sua narrativa, o que quer, o que tem e o que precisa desenvolver, responde essa pergunta de forma completamente diferente de quem chega sem essa clareza. Não porque ensaiou mais, mas porque tem mais para dizer de verdade.

E tem um detalhe que vai além da entrevista: essa clareza sobre si mesmo é o que permite construir um LinkedIn coerente, um currículo com narrativa consistente, um follow-up depois de um processo que soa seguro e não desesperado. Tudo isso se conecta.

Não é algo que se constrói em uma tarde de preparação. É um processo. Quanto mais você desenvolve essa clareza, mais fácil fica responder perguntas como essa de forma natural, sem parecer que está lendo de um roteiro que você montou às onze da noite antes da chamada.

A boa notícia é que qualquer candidato que chega numa entrevista com essa clareza já está à frente da maioria. Porque a maioria chega sem ela. A maioria ainda desconhece o que você aprendeu aqui.


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Gean Carlos

Gean Carlos

Growth Marketing Analyst • First Step Lab

Quem escreveu este artigo

Gean Carlos é Analista de Growth e fundador da First Step Lab. Compartilha conteúdos sobre LinkedIn, currículo, entrevistas e estratégias de carreira para ajudar profissionais a conquistarem vagas.